29.12.14

Das janelas.

Foto: Jéssica Raphaela

10.11.14

Dias nublados.

O repetido começa mais uma vez. Manhã de segunda-feira, 8 horas o despertador toca. Enrola na cama por mais de uma hora até que as obrigações a fazem levantar. Colocar o pé no chão é como assumir que faz parte do ciclo, é se render.

O dia amanheceu escuro dessa vez. Chuva, um som gostoso vindo da janela e uma memória deliciosa vindo do passado. Passado presente, passado que quer ser futuro ainda, que quer ser o agora e o sempre.

Era outro tempo e outro lugar. Um tempo de liberdade. O coração estava solto e leve no lugar que, embora desconhecido, era familiar. A luz deixava o dia com um filtro alaranjado, dia nublado e chuvoso. O som era o mesmo de hoje, o céu era o mesmo, a sensação, igual. Abandonou o ciclo, puxou a coberta e se encaixou no corpo alheio, como uma peça de quebra cabeça, achou seu lugar.

E hoje, neste dia chuvoso, repete o ciclo para que os dias passem. Só assim ela volta para o lugar que é dela e em breve o repetido vai parar de se refazer a cada nova manhã.

30.9.14

Sobre o olhar

No segundo dia de viagem, já sentia as dores da andança do primeiro dia. Foi assim sucessivamente até fincar os pés de volta na desértica Brasília. Nova York é feita pra andar. Desapeguei da preguiça e ignorei (ou tentei ignorar) as dores nas costas, me joguei nas ruas e avenidas de Manhattan e arredores.

Acabei descobrindo que Nova York também é feita para ser vista, e sentida. Eu senti. Cada pedaço da cidade ficou registrado na memória. Os mais bonitos, na máquina fotográfica. Sendo assim, lá vai meu ponto de vista. Foi difícil me apaixonar pouco por esses lugares.

Vista do High Line. Crédito: Jéssica Raphaela

Fulton Street. Crédito: Jéssica Raphaela

À beira do East River. Crédito: Jéssica Raphaela

Prédio no Wall Street. Crédito: Jéssica Raphaela

Selfie - Wall Street. Crédito: Jéssica Raphaela

Miss Liberty. Crédito: Jéssica Raphaela

Manhattan à noite. Crédito: Jéssica Raphaela

Na Catedral de São Patrício. Crédito: Jéssica Raphaela

Wall Street. Crédito: Jéssica Raphaela


Nalgum lugar qualquer. Crédito: Jéssica Raphaela


Lagoa no Central Park. Crédito: Jéssica Raphaela

Vista do Empire State Building no pôr do Sol. Crédito: Jéssica Raphaela

Manhattan vista da Roosevelt Island. Crédito: Jéssica Raphaela


Ruínas na Roosevelt Island. Crédito: Jéssica Raphaela
  
Queensboro Bridge. Crédito: Jéssica Raphaela

Four Freedoms Park - Roosevelt Island

As janelas. Crédito: Hans Eliason

Manhattan vista do Brooklyn. Crédito: Jéssica Raphaela

Brooklyn Bridge Park. Crédito: Jéssica Raphaela

Sobre os caminhos. Crédito: Jéssica Raphaela
  
Engavetamento no Chelsea. Crédito: Jéssica Raphaela



29.9.14

Na companhia do mundo.



Toda vez que alguém me questiona sobre a razão de eu ter decidido viver certas coisas, eu travo. Não que eu paralise ou algo do tipo. Simplesmente começo a pensar no por quê, e o resultado é sempre o mesmo: não consigo acessar o exato momento em que tomei a decisão.

Foi assim com Nova York. Claro que os motivos são óbvios quando se pensa nessa cidade. Mas não lembro bem o estalo que me fez organizar uma viagem sozinha para o umbigo do mundo. Logo eu que nunca havia tirado o pé do solo brasileiro e que tinha sérias dúvidas sobre o meu inglês nunca antes praticado. Um surto de coragem me fez tomar as rédeas da vida e assim eu fui.

Lembro de ter comprado as passagens e, de repente, estar no meio daquelas ruas cheias de prédios de tijolinhos, no meio de um filme que eu mesma escrevi, produzi e protagonizei. Perdi a conta das vezes que ouvi a palavra 'corajosa' (e em quantos idiomas) , mas em todas elas eu só pensava sobre a minha insegurança e respondia "geralmente não sou uma pessoa corajosa". Meu personagem era assim, não costumava acreditar muito em si, e por isso sempre se surpreendia com os próprios feitos.

O roteiro do filme foi arrojado. Nada de explosões, terror, catástrofes. Estava mais para um texto a la Woody Allen. Uma comédia cotidiana, mas cheia de fatos inusitados, tudo no meio de um romance apaixonante e improvável.

O cenário foi perfeito. Eu andava pelas ruas e só faltava o cinegrafista para pescar uma cena. Tudo era muito encantado e lá eu percebi que nem era preciso tanta coragem como todos achavam. O segredo não era encarar Nova York, era encarar a mim mesma. Eu estava sozinha em Nova York, mas não solitária. Tenho que confessar: nunca fui tão completa antes.


4.2.14

A pequena Raphaela.



Hoje ela apareceu de biquíni na sala de TV pra testar minha vontade de apertar aquelas gordurinhas até dizer chega. Disse que vinha da natação, e que tinha poucos amiguinhos lá. Mas muitos bebês “desse tamanhinho”, mostrou encolhendo as mãos, com as mamães deles na água. Fico impressionada com a articulação dela. É toda desenvolta nos gestos e nas palavras.

Quando a gente fala alguma bobeira, ou alguma coisa curiosa, trata de fazer a cara mais fofa do mundo, olhando pra cima com aqueles olhos de jabuticaba. Dá para ver na cara dela que ela está desconfiando da informação. Pensa um pouco e nos corrige. Esperta essa Raphaela.

Uma conversa com ela é a coisa mais fácil do mundo. Ela conta os casos com detalhes e com um ponto de vista de quem só pode ter três anos mesmo. Não esconde como é feminina e guarda bem a informação de que a nova calopcita trazida pelo avô veio do nordeste para ser namorado da antiga, batizada de Eddie. Quando reproduz a informação para o primo, olha para mim (eu morrendo de achar graça) e diz, para se eximir de qualquer fato errado: “você que disse, dinda”.

Essa pequena do cabelo cacheado igual o meu me encanta todo dia. Vou confessar pra vocês, coisa boa nessa vida é ser tia.